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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Mistério


Então, já que resolvi escrever este conto e você resolveu lê-lo devo lhe contar, antes de tudo, que se trata de uma história de mistério e que escrevo enquanto caminho. É um mistério para mim, pois ainda não conheço o seu desfecho, igualmente a você. Mas não vamos discutir sobre o final da história antes que ela sequer comece. Para começar, como toda boa história de mistério, precisamos de um corpo. Pode ser o corpo de uma mulher - é sempre mais interessante quando a vítima é frágil e bonita. Mas eu não quero que seja assim, será uma mulher, tudo bem, mas velha e feia. O que acha disso? Não gostou? Pois contente-se, assim será.

Agora, precisamos de um local. Vamos colocar este corpo em algum lugar inusitado. No meio da rua? Não. Na sala de um apartamento? Não, não. Já sei! Em um grande salão de festas. O piso branco, encerado e o sangue vermelho empoçando sob o cadáver. Mas, espere, havia mais gente. Na verdade, havia muita gente ao redor do corpo. Mulheres maquiadas e vestidas com longas sedas escarlates e negras, homens escovados trajando duros ternos branco e grafite. Todos curiosos e assustados, perguntavam-se o que teria acontecido, como aquela senhora poderia ter morrido.

Antes de qualquer outra coisa, vamos falar um pouco sobre aquela mulher. Ela devia ter um nome. Algo como, vejamos, Griselda. Talvez na metade do caminho entre os quarenta e os cinquenta; divorciada; mãe. Dois ou três filhos? Uma filha. Mas o que uma mulher como esta fazia em uma festa para ser morta? Uma festa não, um baile. Melhor assim, mais distinto. E não era qualquer tipo de baile, era um baile de casamento. Alguém resolvera casar-se no dia da morte daquela mulher. Mas isso não importa, os noivos só vieram tomar conhecimento do acontecido muito depois de a polícia ter chegado.

Quem chamou a polícia? Ora! A mãe da noiva. Só ela poderia estar em todos os lugares da festa ao mesmo tempo, cuidando de todos os detalhes para que nada desse errado. Mas algo deu errado. Um infeliz resolvera matar aquela velha bem ali no meio do salão.

Afastem-se, afastem-se! Alguém gritava. Mas o que todos queriam era aproximar-se e saber quem era que morria. Afastem-se, afastem-se! Gritou a polícia. Fazer o quê? É afastar, deixar os homens trabalharem. E trabalharam rápido. Meia hora depois de o primeiro grito ter soado e a música parado repentinamente, um lençol branco já cobria o pálido defunto estirado no chão e meia dúzia de investigadores interrogavam aos grupos as pessoas que permaneceram presentes no baile. Naquele momento, algumas viaturas rondavam o quarteirão em busca de qualquer movimento suspeito.

Por falar em suspeito, precisamos arranjar alguns suspeitos. Não há mistério sem suspeitos. Talvez o homem que se esgueirava nas sombras das árvores na fria madrugada, olhando vez por outra para a rua vazia, apressado em se afastar dali. Ou que tal jovem moça de vestido rosa grená que de longe observava o desenrolar do caso, sem conversar com ninguém, sem se aproximar, e que mentira o próprio nome para a polícia? Ou então o velhote que esteve quase todo o tempo, desde que o baile começara, encostado a mesa de coquetéis.

O salão começou a esvaziar-se. Os jovens amigos do noivo foram para algum bar, para aproveitar o resto da noite. As jovens amigas da noiva correram para casa, para espalhar a notícia do extraordinário caso do baile. E os velhos foram dormir.

Menos um. O velhote dos coquetéis, ex-marido de Griselda, atravessou o salão e foi direto para onde estava a moça de vestido rosa grená e trocou sussurradas palavras com ela. A moça assentiu e acompanhou o pai, passando bem pertinho de onde o corpo de sua mãe ainda jazia, imóvel. Entraram no carro e a moça dirigiu direto para a casa do irmão. Comunicou a morte de sua mãe e o rapaz não demonstrou nenhum pesar. Também era capaz de deduzir o que teria acontecido.

Neste momento, é preciso contar o que aconteceu pouco antes de Griselda ser brutalmente perfurada e rasgada por um punhal incrivelmente afiado.

Um rapaz de vinte e poucos anos atravessou o salão diretamente para onde a Griselda estava, abandonada em um canto pelas amigas matronas, com sono e cansada de esperar por sua carona. O rapaz vestia preto e foi tão simpático quanto ela jamais podia ter esperado de alguém tão jovem. Mas não foi a sua simpatia que convenceu Griselda a abandonar o seu confortável assento e constranger a si mesma para uma dança, foi a incrível semelhança com um certo homem do seu passado que a levou àquilo. Um passado anterior aos filhos do seu casamento, um passado anterior aos votos de lealdade e até que a morte os separe.

A música tocou lenta e interminável, durou até a morte, sem dor nem medo.

Ela, entregue nas mãos do filho que rejeitara quando jovem. Nos tempos em que engravidar moça, solteira, envergonhava a mais pobre das famílias. Aceitou, passivamente, que o fantasma do seu passado, em uma única e cruel apunhalada, terminasse com a sua vida e o seu sofrimento.

Griselda vivera anos angustiosos tentando reencontrar o filho entre os becos carcomidos, entre as lixeiras fedorentas e cheias de vida, de ratos, de formigas. Mas fora o filho quem a reencontrara para travarem a última batalha das suas vidas. Ela não poderia ser feliz enquanto ele quisesse fazer parte da sua, ele não poderia viver enquanto ela fosse feliz. Matou-a. Sem pesar, sem vacilar, sem constrangimento. Como ela o havia matado em seu colo. Dançou com a mãe e tirou-lhe a vida como há muitos anos atrás ela lhe havia tirado.

A polícia nunca descobrirá estas verdades. A família desertora de Griselda não sentirá falta da louca, histérica, esquizofrênica. E ninguém nunca desconfiará do filho ilegítimo que por anos ela somente visitara nos sonhos e nos delírios da febre. Apenas eu que vou esquivando-me pelas sombras destas árvores nesta fria madrugada e tu, adorado leitor, sabemos agora a verdade. Cala-te.

Pedro Paiva

2 comentários:

  1. Amei Pedro. Sua perspicácia de formar a narrativa e conjecturar com os elementos ficcionais é incrível. Estarei por aqui observando de perto suas obras. Continue. Isso é muito gostoso.

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