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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010


[Conto]

O Poço da Colina


Um pássaro colorido pousou sobre a amurada da varanda de uma casinha branca, onde uma garota de vestido igualmente branco permanecia sentada, enquanto observava o belo vale ao redor de onde morava. Era ao entardecer e neste horário os pássaros costumavam fazer o maior estardalhaço. Parecia uma festa. Clara contemplava em silêncio, ressentida de não poder participar da farra também.

Todas as tardes de todos os dias eram assim. Porém naquele dia ela sentiu algo diferente. Um desejo estranho, que jamais sentira, invadiu seus pensamentos. Não sabia o que era exatamente, mas sentiu que era algo bom e estava disposta a lhe dar vazão.

Ergueu-se subitamente, saltando da amurada para o chão de terra a sua frente. Um vento envolvente fez balançar o seu cabelo, que sempre estava preso em um rabo-de-cavalo. Clara virou-se para o vale mais alto e começou a caminhar na sua direção. O caminho ia, aos poucos, ficando coberto do capim mais verde da primavera. Começou a subir a colina, era um morro muito alto, no qual ela não se lembrava de já ter estado. À medida que subia, pedras cada vez maiores surgiam ao seu redor, às vezes obrigando-a a desviar-se delas para seguir em frente. O sol se punha e o vento soprava com mais força e mais frio, chegava a cortar seu rosto enquanto corria.

Uma rajada lhe trouxe, de presente, uma flor vermelha como o sangue, que a menina prendeu no cabelo. Clara nem fazia idéia de como ficara bonita, só sentia que algo tinha mudado dentro dela, alguma coisa havia amadurecido.

Faltavam só alguns poucos segundos para que o sol completasse seu ritual diário de se pôr atrás das colinas mais distantes. Toda a base do vale já estava em meio à escuridão, apenas o topo do morro mais alto, que era aquele no qual estava Clara, ainda podia ser tocado pelos últimos raios dourados.

A menina correu para alcançar a luz antes que ela se fosse de uma vez. Correu muito rápido, sem olhar para baixo ou para os lados, mirava apenas o céu, queria ver o momento exato em que a fina linha do horizonte cobriria o grandioso astro resplandecente. Mas antes que isso acontecesse, ela tropeçou em uma mureta de tijolos no chão que não tinha visto e foi caindo, engolida pela escuridão.

Caiu dentro de um poço. O fundo era escuro, frio e molhado. A água negra chegava à altura dos seus tornozelos. Clara caíra sentada e sentia muita dor em todo o corpo. Percebeu, alarmada, que jamais seria capaz de se levantar sozinha. Foi quando uma mão tão quente quanto humana segurou seu braço com firmeza e a puxou para cima. Outra mão veio em auxilio da primeira para ajudar Clara a se equilibrar sobre os pés.

Uma voz rouca e masculina soou. Era a voz de um garoto que ecoava pelas paredes do poço, perguntava se ela estava bem. Levando em consideração que acabara de despencar de uma altitude elevada e chegara ao fundo com vida, Clara respondeu que se sentia bem. Mas agora precisava sair daquele lugar, voltar para casa, reencontrar sua família. Estava à beira do desespero quando o garoto misterioso se aproximou do seu corpo e lhe abraçou. Foi o abraço mais apertado e delicado, ao mesmo tempo, que Clara já recebera na vida. Não parecia ter motivo ou explicação, mas a menina não pode resistir a tamanho gesto de carinho. Ele lhe contou que, por estar preso ali há tanto tempo, não poderia deixar de sentir mais feliz por finalmente ter encontrado companhia. Clara não conseguia compreender o porquê dessa felicidade, já que ficariam presos ali para sempre até que a morte se esgueirasse por aquelas paredes cobertas de lodo e os levasse embora.

Quantos dias suportariam sem comer? Quanto tempo duraria aquela pequena quantidade de água que restara no fundo do poço tão misturada em lama e vermes, que dava náuseas só de olhar. Este poço estava desativado há muitos anos, ninguém mais subia a colina para pegar água dali, uma vez que já secara. Jamais seriam encontrados, por mais que gritassem, a casa mais próxima fica a vários metros de distância, não seriam ouvidos. Porém, estranhamente, enquanto se aquecia no corpo de alguém que mal conhecia, uma sensação de felicidade estranha tomou conta do seu espírito. Clara percebeu que estava feliz também, mas somente por fazer alguém feliz.

Quando tudo pareceu não ter solução e ficara certo para Clara que eles não teriam saída, ela agradeceu por não estar sozinha naquele infeliz momento. De repente, o menino afastou-se dela e moveu-se para o lado a fim de mostrar-lhe algo. Pediu para que ela olhasse para cima e Clara pode ver o contorno de um grande balde metálico, que ainda não havia notado, a pouco mais de dois metros de suas cabeças. Estava preso a uma corda, a uma altura que uma única pessoa jamais alcançaria, porém duas, se subissem uma na outra conseguiriam facilmente.

Clara entendeu o plano. O garoto imediatamente se abaixou para que Clara subisse em seus ombros. Quando ele ficou em pé, Clara ergueu os braços e alcançou o balde de ferro. Agarrada ao balde, ela ficou em pé sobre os ombros do garoto, depois prendeu-se à corda, passou as pernas para dentro e sentou sobre a borda. Esticou a mão para baixo e puxou o menino para junto dela. Ele não pesava muito, não depois de tantos dias sem ter se alimentado.

Em seguida, com muito esforço, os dois escalaram a corda, içando a eles próprios com o balde até o topo. Foi uma dura escalada, cheia de arranhões e escorregões, mas eles não desistiram e em momento algum deixaram de trabalhar juntos, como uma equipe. Apoiaram-se para sair, erguendo-se sobre a mureta de tijolos. Quando conseguiram, desabaram exaustos na relva. Clara percebeu que seu cabelo havia se soltado durante a escalada, ou em outro momento talvez. Notou que sua roupa, outrora alva como uma nuvem em um dia ensolarado, estava suja de lama e sangue. O garoto tinha lama por todo o corpo e sua camiseta estava tão rasgada quanto um trapo velho. Simplesmente riram juntos da sua sorte.

Duas mãos tocaram-se e apertaram-se. Juntos não sentiam frio, medo, solidão. A lua sorriu para eles e prometeu velar o seu encontro até que o sol ressurgisse no dia seguinte, empurrando toda a escuridão para o outro lado. Então eles adormeceram profunda e docemente no topo daquela colina sombria a espera de mais uma manhã.

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